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A Cidade é a mensagem

“ (…) é a região que faz os media.” (Pierre Musso)

Pela sua instantaneidade e simultaneidade, o sistema mediático acaba por assumir um papel marcante na criação e manutenção da identidade e imaging das comunidades. Assim, reflectir sobre a mediatização ajuda a ilustrar porque cidades, comunidades, culturas e identidades se tornam mediáticas num esforço de resgatar a sua posição e importância num mundo globalizado.

“Há pois uma afinidade essencial entre media e espaço, entre o crescimento das mediações, o crescimento da experiência mediada e a problemática do espaço.”[1]

Ao seguir esta linha de pensamento, acolhemos a ideia de que a comunidade ao mesmo tempo que é produtora de conteúdos, é altamente influenciada pelos media envolventes, criando-se os parâmetros de reciprocidade e proximidade identificadora entre comunidade/cidade/local e media.

 

Nesta óptica, os media locais seriam os mais adequados para a leitura dos elementos distintivos de um espaço, essencialmente do espaço em que se inserem, sendo esta a principal razão da sua existência.

De facto, na esfera actual, a mediatização constitui um fortíssimo mecanismo de organização da sociedade e é notável nos últimos anos a viragem para as realidades locais.

“O papel das televisións é determinante. Por un lado, ó garantir a adaptación de obras de interesse universal á natureza específica dos seus públicos; por outro lado, ó alimentar esse acervo global com obras orixinais de produción global. (…) Una vez máis, e unha cuestión de ousadía e humildade. (…)

A televisión é tanto mais forte e poderosa canto mais sintonizada coas lexítimas esixencias, ânsias, sentimentos e gustos dos públicos ós que se dirixe, considerándose como lexítimo o que corre do lado dos dereitos, liberdades e garantias universalmente recoñecidos.”[2]

Adriano Duarte Rodrigues, afirma que a “percepção que temos hoje do mundo tornou-se dependente de complexos e permanentes dispositivos de mediatização que marcam o ritmo da nossa vida quotidiana” [3] e João Correia, acrescenta que “o espaço está submetido a uma forma de manipulação tecnológica que tende para a sua implosão absoluta e que (…) o estudo da interacção tem que atender hoje à contracção do tempo e mapeamento do espaço que resultou em grande medida dos meios de comunicação.” [4]

Referindo-se aos meios locais como alternativa, o mesmo autor refere que “uma relação mais directa com os públicos, permite que a crise de mediação fosse superada por uma relação onde a própria comunidade readquiria ela própria uma função primordial de medium.”[5]

Com enormes vantagens já discutidas por diversos autores, os media exercem uma função mediadora entre os cidadãos e a cidade, passando a ser estratégicos para os actores locais, pois enforma a grandiosidade da cidade e molda as representações acerca da sua transformação.

Ela produz signos de bem-estar e satisfação no consumo dos espaços de lazer, cria comportamentos e estilos de vida e fomenta a valorização de locais através de imagens percebidas; e perceber, é ter feito uma leitura da imagem e tê-la descodificado no total das suas mensagens subentendidas, decifrando-a social e culturalmente.

Para Martine Joly [6] “uma imagem é sempre uma mensagem para o outro, uma ferramenta de expressão e comunicação”, ou seja, independentemente da mensagem, ela precisa de um referencial que reporte a um simbolismo comum entre o emissor e o destinatário.

Os media são um é um factor marcante no cenário cultural e social das cidades e têm um papel importante nos processos que acompanham a renovação urbana, que interage

e interfere no curso dos acontecimentos através de imagens publicitárias, mobilizações e campanhas sociais.

Exercem um verdadeiro fascínio sobre a sociedade civil e política, e têm força de pressão na elaboração de imagens colectivas que possam ser absorvidas nas representações de indivíduos e grupos.

Têm também poder para construir ou destruir a identidade de actores individuais ou colectivos.

De facto, as políticas de comunicação social têm o efeito de produzir na população a “sensação de viver num meio privilegiado, o qual, levado ao seu limite, tem manifesto em alguns momentos um sentimento ufanista dos cidadãos com sua cidade.”[7]

 

“Em algumas ocasiões, essas demonstrações de exaltação ao lugar aparecem de modo bastante explícito, como num vídeodepromoção das transformações de Barcelona protagonizado por um casal de namorados – ela local, ele estrangeiro, o qual depois de passear pelas áreas renovadas da cidade, exclama:

Do you realize how lucky you are to live in Barcelona?“[8]

A construção de uma geografia dos afectos, dos espaços, que contribui para a divulgação de uma determinada imagem, é sobejamente utilizada pelos meios de comunicação.

Trata-se, de facto, de utilizar os recursos da emoção dentro de uma estratégia de identidade local.

Como refere Sanchéz, “a publicidade em televisão, rádio, imprensa e demais meios de comunicação e informação que (…) têm sido intensamente utilizados como veículos construtores de determinadas leituras da cidade, intervêm decisivamente na criação de valores culturais e de representações sociais que, por sua vez, promovem determinados comportamentos e formas de utilização dos espaços públicos”[9]

Os media são assim, uma espécie “de “senhores da memória” da sociedade sendo detentores do poder de fixar o presente para um futuro próximo ou distante. Ao

legitimar o acontecimento, divulgando-o e tirando-o de zonas da sombra e silêncio, impõem uma visão de mundo que actua outorgando poder.”[10]

Como referimos, o inegável poder da visibilidade pública cria as condições para o próprio existir: metaforicamente, a máxima cartesiana “penso, logo existo”, fica aqui moldada por uma nova virtualidade: “apareço, logo existo”.

Como dirá Vacas, a televisão, expondo a comunidade, “coloca-a no papel de actor principal do marketing político, interno e externo, cuja função seria dar forma, precisar, inclusive criar, um discurso global sobre a colectividade.

Da televisão, se espera que possa “moldar a identidade de uma colectividade”.[11]

Dentro de uma mesma abordagem, Moragas defende a audiovisualização do próximo encarando ser essa a real missão da televisão de proximidade.

Ainda antes de entrarmos na fase de atribuição de sentido à televisão de proximidade, há aspectos finais e pontuais a destacar na abordagem da imagem das cidades.

A mediatização, a audiovisualização, no fundo, a atribuição de existencialidade a um espaço aparece hoje bastante conectada com a sua exposição nos meios de comunicação; no entanto, a criação de uma ideologia à volta de uma comunidade ou um espaço geográfico, obriga a certas reservas para que não se crie um paradigma político à volta de um espaço que é partilhado.

As relações de poder e a luta política são aspectos a considerar nestas reservas: não se defende um projecto político; defende-se sim, a dialéctica entre o simbólico, a leitura da cidade e a representatividade.

referências

[1] Maria Teresa Cruz, Espaço, media e experiência: na era do espaço virtual e do tempo real, Revista comunicação e Sociedade, Vol.12,  CECL, Universidade nova de Lisboa, 2007. p.27

[2] António Borga,  As televisións na sociedade global, in Galicia e Portugal: a Comunicación euro-rexional no século XXI. Xunta de Galicia, 1999, p. 106

[3] Apud R.N. Monteiro de Santana, Reflexões sobre o mundo contemporâneo, PI- Universidade Federal do Piauí, 2000, p 160

[4] João Correia, op.cit , p. 141

[5] Id. Ibid. p. 145

[6] Martine Joly. op. cit. p.18

[7] Fernanda Sanchéz, op. cit. s/p

[8] Barcelona, una passió, 1992

[9] Fernanda Sanchéz, op. cit. s /p

[10] Adriana Sturmer, Apud Barbosa, Mídia e Identidade discursiva: a dialéctica Idem X Ipse na produção televisiva local, Dissertação de Mestrado, RS, Brasil, 2008, p. 24

[11] Francisco Vacas, El sector audiovisual en Extremadura; por un nuevo modelo de Televisión Regional; Tesis Doctoral, Universidad Complutense de Madrid, Dep. de Comunicación Audiovisual e Publicidad Madrid, 1999. p. 130

 

 

 


Cristina Tereza Rebelo

Investigadora do CEL-CELCC com artigos publicados nas áreas da comunicação, TV local e marketing.

Doutorada em Comunicação pela Universidade de Vigo.


Professora Auxiliar do ISMAI.

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