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City Marketing - TV local como mecanismo de "inscrição"

As televisões de proximidade já não assentam a sua definição num conceito meramente geográfico; a comunidade está inserida para além de um espaço físico, criando-se uma relação de cumplicidade e proximidade partilhada e que na essência, constitui a sua identidade.

Observa-se que o panorama mediático está sustentado, actualmente, sobre o desafio do global e o local: a comunicação local surge para contrapor alguns efeitos desta dialéctica tentando reavivar o local.

Desta forma, os meios de comunicação de proximidade podem e devem ser encarados como instrumentos de mediação na busca de metas e objectivos concernentes aos locais e comunidades, cumprindo diferentes papéis através do auxílio de uma massa crítica colectiva e participativa, sem que o elemento mercado promova uma sombra no evoluir da sua missão.

 

A condenação ao silêncio é combatida, rejeitando-se incertos argumentos que têm sustentado a falta de investimento no sector num passado ainda recente.

No que diz respeito à realidade portuguesa, desde a Comissão de Reflexão sobre o Futuro da Televisão, que a sustentabilidade destes projectos é discutida.

Sob a égide da alegação económica se atribuiu à falta de mercado publicitário e à não existência de regiões, e ainda a proximidade com os poderes locais e regionais, o não surgimento destes fenómenos, de forma expressiva, em Portugal.

Mas serão estes argumentos válidos no panorama actual da comunicação?

Um lugar onde se encontram os particularismos e as identidades singulares num mesmo espaço coexistente com o nivelamento global e onde pululam os motes de uma nova democracia oriunda da interactividade?

Parece-nos que a resposta contraria estes fundamentos e poderá basear-se nos seguintes factores:[i]

1-     O argumento político de fundo: o direito ao audiovisual no plano das regiões e das comunidades locais é um direito que se configura no quadro do direito à cidadania e à liberdade de acesso ao sistema dos media pela sociedade civil, em particular pelos cidadãos do interior do país – ou das ilhas – que habitualmente não se reconhecem nos meios de comunicação de cobertura nacional.

2-     O argumento jurídico formal: em abstracto, a legitimidade de existência de uma televisão local ou regional é idêntica à de uma rádio local ou regional.

3-     O argumento cultural: ou seja, pela necessidade das regiões e das comunidades locais participarem de forma activa no modelo de comunicação audiovisual cada vez mais próximo das suas tradições e das suas realidades quotidianas e culturais, e cada vez necessariamente menos dependente de fluxos de informação globalizantes e/ou pan-europeus, mais afastados do modelo de comunicação que a Europa precisa para o seu projecto político, económico e cultural.

Desta forma, Cádima (2005) acredita não ser possível “passar um atestado de insanidade económica e cultural aos habitantes e ao potencial das grandes cidades e das regiões portuguesas que os afaste irremediavelmente de um projecto de TV local, emanado directamente da sua sociedade civil, ou de qualquer grupo autónomo dos seus cidadãos.”[ii]

É aqui que reside a conveniência da criação de uma televisão regional e local – nenhum outro meio poderá, eventualmente, assumir-se como tão poderoso mobilizador dos espaços públicos regionais, no robustecimento da cidadania e comunhão na região/local.

Neste âmbito, tem supremacia a sua acção enquanto mediadora mas ao mesmo tempo criadora, renovadora e consolidadora da consciência e identidade.

Esta concepção, passa pela consciência nem sempre pacífica, de que uma região, um local só poderá ser competitivo se e também for portador de um sistema comunicacional integrador, que é um factor visto como fundamental ao desenvolvimento. Sendo intérprete das mesmas, fomenta e chama a si a missão de agente de desenvoltura, aproveitando as capacidades endógenas e as suas vantagens, fixando a “massa crítica”.[iii]

E neste sentido questionamos:

- Como pode uma comunidade, expressar-se se não existe um meio de comunicação social que divulgue com frequência, oportunidade e relevância questões e problemas relativos ao seu espaço?

- Como pode uma comunidade evidenciar as suas emergências, as suas aspirações à afirmação e projecção, quando as instituições falham e o sistema não lhe dá voz, se não se cria um meio de comunicação social realmente capacitado em aglutinar os seus objectivos e interesses e que chegue em efectivo, a todos os cidadãos da mesma em termos de qualidade, entendimento e empatia?

Estas questões evidenciam a responsabilidade dos indivíduos, grupos, localidades e espaços motivadores pelo desejo de referências e enraizamento e também pelo interesse da expressão;

Assim, diferentes tópicos abrem um novo espaço para que a alternativa tenha lugar e tenha voz, num legítimo direito de se expressar sem a prepotência dos grandes centros.

No fundo, trata-se de criar uma narrativa local, que assuma o retrato da comunidade como protagonista e que essa característica seja perceptível ao receptor mesmo que de forma reivindicativa.

“Ante la globalización mercantil, la continua superación en el campo tecnológico y la universalización a través de las telecomunicaciones, la empresa de comunicación local no puede quedarse de brazos cruzados. La homogeneización, como amenaza, exige una respuesta inmediata, una reivindicación de lo próximo. (…) Un medio local existe en relación con un espacio social, con el que mantiene una relación de retroalimentación mutua. El público se reconoce como identificado, se ve reflejado como si estuviese ante un espejo; esa imagen reflejada responde al deseo de protagonismo de cada uno de los usuarios.”[iv]

Ao emitir esta opinião, os autores acreditam que é um direito legítimo das comunidades a expressão da sua “personalidade” num esforço de rejeição de modelos distantes e pouco distintivos do tema local. Este direito compreenderá o resgatar dos seus interesses e fidelização às suas ideias, ocupando um espaço no terreno público dos meios nacionais e internacionais e respondendo a um âmbito de cobertura específico.

Resumindo, a TV local como factor de:

- Reforço da cumplicidade com o próximo num pacto de interesses recíprocos.

- Expansão e reforço de uma identidade de “resistência” num espaço global caótico e desregrado.

- Factor estruturante do espaço público de proximidade, objectivando a criação e amadurecimento de massa crítica participativa e de sentimentos de pertença (literacia da informação).

- Criação de um quadro de referências, descortinado pela identidade local que se transforma no mostruário local (ou regional) amplificando a sua visibilidade e propiciando a sua abertura ao exterior.

O imperativo local advém da mútua relação entre a comunidade e os seus habitantes, onde o conceito de proximidade é a garantia de renúncia frente à globalização: a sobrevivência desta proposta está articulada à ideia do próximo e à valorização do local como espaço sentido e fonte de experiência; não apenas como elemento material mas metafórico.


[i] Cádima, F.R. (2005).Os media regionais face à TV local.

 

.http://irrealtv.blogspot.com/2005/05/os-media-regionais-face-tv-local.html . (14/01/09)

[ii] Id. Ibid.

[iii] Rebelo, C. (2001). Televisão regional e Região Norte: uma contextualização à proximidade regional, p. 144-145

[iv] Lopez, X.  Galindo, F. Villar, M. (1998). El valor social de la información de proximidad.

http://www.ull.es/publicaciones/latina/a/68xose.htmf>  (23/01/09)

 

Cristina Tereza Rebelo

Investigadora do CEL-CELCC com artigos publicados nas áreas da comunicação, TV local e marketing.

Doutorada em Comunicação pela Universidade de Vigo.


Professora Auxiliar do ISMAI.

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