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A era do jornalismo pós moderno : o espaço e o tempo 2

 

A era do jornalismo pós moderno: o espaço e o tempo (2)

 

Sem dúvida que o jornalismo é uma das profissões que mais se modificou graças às novas tecnologias.

Segundo o estudo de João Canavilhas (Canavilhas:2005), os processadores de texto, os programas de tratamento digital de fotografias, folhas de cálculo, edição de imagem e som, edição HTML e edição de vídeo e eletrónica são as utilizações mais frequentes que os jornalistas inquiridos fazem do computador.

Nesta ótica, e embora nas universidades o compromisso com as novas tecnologias tenha sido crescente, torna-se necessário dotar os profissionais das habilidades e competências que radiquem também na criatividade e compreensão desta nova linguagem e não apenas na composição de conteúdos , até porque os jornais on line na realidade, competem com outros sites. De igual modo, a gestão destas ferramentas será sempre necessária dado que a notícia obedece a critérios de credibilidade e fiabilidade; de facto, a grande rapidez de acesso à informação “infinita” na Internet arrasta consigo um reverso: a também necessária velocidade na atualização da mesma informação ainda mais quando se trata de jornalismo. Isto poderá significar que à urgência no imediatismo e actualização poderá associar-se um desempenho menos profissional  ajustado à velocidade do mundo virtual.

Por outro lado, o leitor.

Este é o dono do caminho para aceder à informação.

O jornalista cada vez mais se depara com o facto de que o leitor percorre diversas fontes e faz a sua própria apreciação devido à proliferação crescente dos espaços da notícia. Veja-se o caso dos blogs. O espaço da notícia é também atualmente o espaço da cidadania, na medida em que proliferam as capacidades de publicar, trocar, criar, agir e comunicar o que significa que “este novo meio de expressão pessoal constitui uma nova forma de expansão da esfera pública”.(Mortensen e Walker, 2002).

O acesso, não apenas, ao apontamento informativo ou notícia mas também ao lado opinativo do blogger, é um elemento muito relevante na interação com o leitor que muito apetecivelmente se predispõe a vincular uma ligação com o jornalista.

Ou seja, haveria uma maior sujeição à agenda do público e também uma maior tendência a elaborar conteúdos para comprazer o leitor, resultando obviamente, em trabalhos de cariz sensacionalista.

A proliferação deste meio, acaba por responder ao desafio. As publicações acabaram ou acabarão por concertar os seus interesses com os do público, na medida em que se pelo lado das publicações/jornalistas o feedback do seu trabalho é útil, pelo lado do leitor há uma maior possibilidade de “aprender” a notícia e a leitura do meio.

Um post do  Bivings Group ( Petersen: 2007) refere de uma forma sucinta algumas utilizações que os jornalistas podem fazer dos blogs para além da distribuição de conteúdos. Destacamos por exemplo:

  • solicitação de ideias para cobertura informativa induzindo a participação dos leitores;
  • solicitação de apontamentos críticos sobre questões editoriais;
  • proximidade entre jornalistas e leitores através da troca de opinião;
  • solicitação da ajuda dos leitores para a cobertura de uma história( citizen journalism?);
  • interação e participação de especialistas;
  • partilha dos  interesses e  gostos do jornalista;
  • fornecer tópicos de interesse para discussão pública;
  • estimular a participação do público e bloggers.

Aqui, o que desperta a atenção é a possibilidade em aberto dos blogs cumprirem outras utilidades na relação com o público. Assim, o estreitamento de relações entre os interlocutores desperta a troca de competências e habilidades ao mesmo tempo que se cria mais facilmente uma atmosfera de confiança e fiabilidade .

Além disso, o intercâmbio constante e ágil descortina mais perspectivas e “olhares cruzados”. O próprio jornalista terá acesso às mais diversas ideias sobre o seu “produto” -  a informação passará a ser assunto.

Podemos assim dizer que o blog, é provavelmente a ferramenta e a “invenção” mais interessante na expansão do espaço da comunicação.

Em suma, a ampliação do fenómeno do jornalismo digital tem apresentado ao longo do tempo, matizes variadas que vêm desafiando o sistema tradicional de veicular a informação. Neste âmbito, é interessante também referir que foram já elaboradas algumas iniciativas para a criação de um manual de estilo, entre os quais destacamos o documento de LAVOZ.com.ar (2006)  no qual se apreende inúmeras “fórmulas” para lidar com o hipertexto, o  multimédia e a interatividade num modelo inegavelmente bidireccional sobressaindo as seguintes:

  • as notícias de texto plano onde se propõe que o foco da notícias deve apresentar-se no primeiro parágrafo;
  • títulos e subtítulos devem ser breves, claros, simples e concisos não superando as cinco ou seis linhas on line;
  • as notícias devem ser encaradas como temas em evolução podendo assinalar-se o progresso das mesma com expressões:  Urgente; Ampliação; Central e Atualização;
  • a redacção digital deve ter em vista tipo e tempo de leitura, focos de leitura, linguagem objetiva e não promocional, atracção pelo texto evidenciado;
  • hipervínculos
  • fotografias com os mesmos critérios jornalísticos;
  • utilização de blogs para o feedback e a criação de uma rede social. Este documento revela ainda todos os passos para iniciar o blogging e inclusive regras para regular o funcionamento do blog.

Não podemos deixar de referir ainda o extenso retrato que se faz do leitor digital muito útil na concepção das reflexões apresentadas. O leitor digital:

  • necessita da hierarquização das notícias
  • não tem muito tempo e tende a ser mais especializado
  • tem necessidade de conhecer a hora de atualização da notícia
  • necessita uma selecção adequada de conteúdos contundentes e com economia de linguagem
  • e finalmente, o leitor digital já “pensa” em termos multimédia.   

Em definitivo, se cria todo um conjunto de preocupações com este moderno tipo de leitura que radica na aproximação a uma revolucionária linguagem e essencialmente, a uma nova gramática.

Para concluir, é ainda relevante, a extensa variedade de fenómenos jornalísticos singulares à volta da Internet; citamos por exemplo, o jornal on line concebido por uma emissora de rádio para adaptar ao papel os conteúdos  radiofónicos sendo pioneiro em Portugal : o Página 1 querendo dar aos seus ouvintes uma nova forma de ouvir e ler a notícia. Sobre ob projecto qual afirma o seu director Francisco Sarsfiedl Cabral (DN:2007):[1]

“(...) temos de ser cada vez mais multimédia.”

 “Há que explorar todas as capacidades multimédia que o ciberjornalismo permite”.

As iniciativas multiplicam-se de facto, e tornam-se cada vez mais originais.

Em vias de expansão, o mercado português tem acompanhado a evolução global de preferências pelo novo suporte, e o atraso relativo em relação ao acesso à internet têm excluído muitos portugueses do jornalismo on-line e as suas temáticas, embora o panorama tenha melhorado bastante nos últimos anos com a aposta em recursos humanos jovens e em novas políticas de comunicação que indiciam uma adequação rumo à mudança de mentalidades e a uma melhor gestão e apetência pelas novas linguagens e suportes.

 

BIBLIOGRAFIA 

  • ÁLVAREZ MARCOS, J (2003) El periodismo ante la tecnologia hipertextual in Noci, J. D
  • SALAVÉRRIA, R – Manual de la redacción ciberperiodística. Ariel Comunicación  p.231-259
  • BARBOSA, Elisabete e GRANADO, António.(2004) Weblogs- Diário de Bordo. Lisboa, Porto Editora.
  • CLOUTIER, Jean (1975). A era de Emerec. Lisboa, Instituto de tecnologia educativa.
  • GIL, José (2004) Portugal, Hoje – o medo de existir. Lisboa, Relógio d´Água
  • JESPERS, Jean-Jacques.(1998) Jornalismo televisivo. Coimbra, Ed.Minerva
  • MÓNICA, Maria Filomena.(1978) Educação e Sociedade no Portugal de Salazar. Lisboa, Editorial Presença.
  • PINTO, Marcos J.(2002) Seja um editor na era digital. S. Paulo, Editora Érica,
  • RODRIGUES, Adriano Duarte. (1994 Comunicação e Cultura. Presença, Lisboa.
  • SANTOS, Rogério (1998) Os novos media e o espaço público. Lisboa, Gradiva
  • VILCHES, Lorenzo (1999) La lectura de la imagem. Prensa ,cine, televisión. Barcelona, Paidós 

 

WEBGRAFIA  



[1] Cf. Site referente à Rádio Renascença www.rr.pt 

 

Cristina Tereza Rebelo

Investigadora do CEL-CELCC com artigos publicados nas áreas da comunicação, TV local e marketing.

Doutorada em Comunicação pela Universidade de Vigo.


Professora Auxiliar do ISMAI.

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