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Mediavisão: O mundo do eye am

A história da relação do homem com os média faz-nos refletir no tipo de civilização que estamos a construir e no modo com os meios nos moldam. Viajando até à Idade Média podemos perceber a questão de S. Tomás de Aquino para quem os grandes Mestres, que foram Sócrates e Cristo, não quiseram confiar os seus ensinamentos à escrita:

"Utrum Christus debuerit doctrinam suam scripto tradere?”

“… é natural que Cristo não tenha confiado os seus ensinamentos à escrita. Em primeiro lugar, em virtude da sua dignidade; porque, quanto mais o mestre é perfeito, mais a sua maneira de ensinar deve ser perfeita. E, por consequência, era conveniente que Cristo, que era o mais perfeito dos mestres, adoptasse o método de ensino pelo qual a sua doutrina seria impressa no coração dos seus auditores.”

A preocupação com a possível perda de significado foi a razão que motivou a defesa por Sócrates do diálogo falado relativamente à escrita (que, ironicamente, conhecemos dos textos de Platão): a escrita não permitia a resposta, a interação tão característica do diálogo.

A cultura mágica da audição cujo contexto presencial induz uma maior carga emocional caracteriza-se pela confiança nos sentidos humanos: a audição oral procura imagens e não conceitos. Neste universo do ouvido, onde a disseminação das ideias era feita oralmente, o homem tende a viver tanto quanto possível, no sagrado ou na proximidade de objetos consagrados. De facto, cada autor é também recetor.

A grande revolução aconteceu com a Galáxia Gutenberg, a qual reproduz por que a cultura do alfabeto predispõe o homem a dessacralizar o seu modo de ser.

A palavra impressa criou um mundo de movimento e isolamento: a portabilidade do livro contribui para o culto do individualismo e fechamento – o mundo do I AM.

A revolução de Gutenberg alterou profundamente as formas de produção, reprodução e de difusão da escrita modificando as práticas sociais e individuais de leitura e de escrita: modificou portanto, a literacia. Institui-se a difusão em massa e altera-se a condição dos que escrevem e dos que leem criando uma distância entre autor e leitor: o autor do texto impresso é a monumental figure e o leitor é apenas a visitor in the author´s cathedral. (Bolter, 1991, p.3) A tecnologia da impressão enformou a escrita e quando se lê, “fecham-se” os ouvidos : o mundo mágico da audição transforma-se no mundo neutro da visão.

De facto, um meio de comunicação determina o modo como vivemos, sentimos e pensamos: não vivemos da mesma forma com ou sem televisão, com ou sem escrita, com ou sem internet. A eletricidade marca definitivamente o predomínio do olho sobre o ouvido: deu-se espaço  à cultura do texto eletrónico.

O espaço físico e visual da escrita digital é o ecrã do computador.

Possibilita-se aqui a criação do hipertexto, o qual possui a dimensão e dinâmica que o leitor lhe der  o qual condiciona as relações entre escritor e leitor, escritor e texto e leitor e texto. É a era da aceleração, do início da instantaneidade e ubiquidade, do predomínio da retórica breve e da imaterialidade dos textos. O texto eletrónico é móvel, fugaz e impermanente.

Aproximamo-nos da forma de leitura e de escrita mais próxima do nosso próprio esquema mental. Recuperamos as propriedades do sistema de interação da oralidade, já que a eletricidade torna a distância insignificante.

Recuperamos também a imediaticidade: falar é publicar automaticamente.

Reduz-se a distância entre autor e leitor.

Recuperamos o som: o som, como a imagem, pode disseminar-se no espaço e preservar-se no tempo. Criamos redes/ movimentos sociais com indivíduos que partilham dos mesmos valores e sentimento de pertença: comunidades e tribos virtuais.

A modalidade de pensamento imagético, com ícones e imagens, relaciona-se com o pensamento mítico associado à tecnologia intelectual da oralidade.

Presenciamos e fazemos parte da cultura do EYE AM.

 

Cristina Tereza Rebelo

Investigadora do CEL-CELCC com artigos publicados nas áreas da comunicação, TV local e marketing.

Doutorada em Comunicação pela Universidade de Vigo.


Professora Auxiliar do ISMAI.

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