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Alerta: APPdemia invade sector da saúde!

Infelizmente o tempo disponível não me tem permitido escrever como gostaria todavia, não posso deixar passar este tema em “branco” depois de uma série de notícias que tenho vindo a acompanhar sobre uma eventual APPdemia na área da saúde.

O que quero dizer com isto? Uma epidemia representa a incidência de um grande número de casos de uma doença, num curto período de tempo e na prática é isso que tem vindo a acontecer com as aplicações móveis na área da saúde. Até o termo APPdemia já é usado como Marca de uma APP brasileira que ajuda a identificar surtos e epidemias.

Em menos de 2 anos, praticamente duplicaram o número de apps disponíveis nas lojas da Google e Android para este sector.

As notícias tendem, de forma plausível, a alertar para os riscos desta APPdemia. Por exemplo, o JN divulga que Diagnóstico e tratamento por telemóvel são um risco e adianta ainda que “Nas lojas dos sistemas operativos android ou ios não faltam "apps" que prometem ajudas nos diagnósticos médicos. São de confiança? Não se sabe. E quem controla a qualidade e segurança dos dados? Ninguém.”

Sem dúvida que nos devemos preocupar com esta questão contudo, o que se passa com as apps é o mesmo que se passa com todo o resto – blogues, venda online de medicamentos, pontos de venda com soluções milagrosas para a nossa saúde, anúncios de televisão com soluções muito duvidosas, imprensa com notícias que deixam muito a desejar, profissionais pouco qualificados em áreas alternativas de validade discutível, dispositivos com origens desconhecidas, grupos e páginas no facebook, profissionais que se tornaram influenciadores natos no snapchat, enfim, acho que em quase todos os “campos” e em todas as áreas podemos levantar estas questões.

O que se passa é que saúde é sempre a saúde e, na minha opinião, esta APPdemia surge porque cada vez mais pessoas têm e utilizam smartphone o que faz com que naturalmente procurem soluções “à distância de um clique”. A oferta é muita, mas a credibilidade da oferta realmente é muito discutível.

Estima-se que em 2015 existiam cerca de 165 mil apps na área da Saúde e bem-estar (onde se inclui o fitness, running, etc..) e destas, cerca de 90.000 estão na Apple Store (in medscape). Devemos ter em consideração que muitas apps são no fundo as mesmas e estão “repetidas” entre IOS e Android todavia, concordo que isto parece um exagero. O que eu acho, é que não nos devemos preocupar em demasia com a quantidade visto que o “mercado” acabará por desprezar as que têm fraca qualidade. 

Reparem que se olharmos para as previsões para 2020, estima-se que teremos mais pessoas com telemóvel do que com água ou luz . Cerca de 70% da população mundial (5,4 mil milhões) terão telemóveis e destes, 72% com smartphones (Económico cita estudo da Cisco).

Um estudo da PWC já coloca o mobile no top 3 de tendência do sector da saúde. O que acham que vai acontecer nos próximos anos?

Muito mais investimento vai existir na área do m-health, muito mais empresas vão apostar nestes dispositivos e mais importante ainda, muito mais utilizadores vão andar à procura deste tipo de soluções.

Desafios para o desenvolvimento de aplicações móveis no sector da saúde

Para mim, o desafio para a criação destas soluções está na capacidade que teremos para nos tornamos relevantes e isso não se consegue “sozinho”. Profissionais de saúde, tutela, entidades de saúde, industria farmacêutica, associações entre outros, já provaram que é possível criar excelentes soluções, verdadeiramente úteis, para este sector como tal, o caminho passa por esta cooperação, também na criação de apps credíveis.

Outro dos grandes desafios, para além de toda a burocracia legal, é conseguir obter integrações para que estas aplicações se tornem uma verdadeira mais-valia. Estudos mostram que apenas cerca de 2% deste universo de apps consegue ter integrações com sistemas ou outros dispositivos para que não tenhamos duplicação de processos. Um verdadeiro desafio, não só pelas questões de segurança, mas também pela abertura para este tipo de estudos.

Numa era que tanto discutimos conceitos relacionados com o patient centricity, uma coisa é certa, se queremos garantir a qualidade das apps para o utente, temos que garantir que o “mindset” de alguns profissionais de saúde muda. Temos que garantir que há uma prescrição com conhecimento de causa porque, como é óbvio, uma app “prescrita” tem muito maior adesão do que uma app que apenas está disponível nas lojas da Apple ou da Google e ninguém sabe de onde vieram (são as tais que só vão servir para fazer número).

Não podemos continuar a fazer de conta que a Internet e os dispositivos móveis não alteram comportamentos. Não podemos continuar a achar que tudo isto é mau e que a forma de educar, tratar e monitorizar vai ser igual nos próximos anos. As coisas vão mudar e a uma velocidade considerável.

Reparem que já há quem refira que os utilizadores em 2016 irão confiar mais nas apps do que no próprio médico (Forbes). Isto tem riscos? Seguramente que sim mas desde cedo aprendi que não devemos lutar contra os comportamentos “macro”. Devemos é percebe-los, acompanhar a sua evolução e tirar o máximo partido deles. Neste caso, considero que há um mundo de oportunidades para explorar na área da saúde com benefícios diretos para todos os intervenientes. 

Dispositivos móveis na otimização de recursos

É um facto que os dispositivos móveis andam com as pessoas “para todo o lado”, sejam pessoas com determinada doença ou pessoas perfeitamente saudáveis, independentemente da sua profissão.

Estamos sempre a falar de pessoas como tal, estes dispositivos poderão ser um grande aliado para:

  1. melhorar indicadores de saúde (prevenção & educação)
  2. melhorar adesão à terapêutica (monitorização & auto-controlo)
  3. educar e informar BEM os utentes e profissionais de saúde (conteúdo credível e referenciado)
  4. facilitar o acesso à informação (à distância de um clique)
  5. melhorar a relação, proximidade e conexão entre todos, evitando imensos desperdícios de recursos (financeiros, humanos e ambientais).

M-Health e os novos paradigmas na gestão de saúde.

Não é suficiente fazer as coisas da mesma forma integrando uma app no meio do processo achando que tudo vai melhorar, contudo, não podemos ignorar que os profissionais de saúde são fundamentais para todo este processo. Muitos deles não têm sequer disponibilidade mental para pensar no que quer que seja. Relembro o estudo “Burnout nos profissionais de saúde em Portugal” que refere que “Quase metade dos médicos e dos enfermeiros apresentam sinais de burnout elevado e mais de 20% exibem sintomas de exaustão física e emocional moderada” . Reforço, estamos a falar de pessoas.

O jornal on-line Dinheiro Vivo, citando o estudo o consumidor de comunicação eletrónicas, da Anacom, refere que “a utilização de soluções integradas faz cada vez mais sentido. Até aos 44 anos, temos cerca de 89% da população que utiliza Internet” O Barómetro de Telecomunicações da Marktest, permite concluir que “no 4º trimestre de 2015, 49 % dos utilizadores de Internet com 15 ou mais anos realizaram chamadas de voz pela Internet. Os serviços instant messaging e de vídeo online foram utilizados por 71% e 68% dos utilizadores de Internet, respetivamente”. Estes são indicadores claros que mostram que os portugueses já adotaram este tipo de soluções nas suas vidas.

Todos sabemos que implementar qualquer projeto sustentável e com verdadeira proposta de valor para este sector requer tempo, aprendizagem e o envolvimento de vários “players” porém, deixo aqui 6 tópicos quase obrigatórios para que uma solução mobile tenha viabilidade do ponto de vista de adesão dos seus utilizadores:

1) Identificar o problema

A tecnologia é um meio para atingir um fim. Qual é o verdadeiro problema que queremos resolver?

Esta é uma questão que me parece evidente, mas muitas vezes é totalmente ignorada e os produtos tecnológicos muitas vezes começam e acabam na tecnologia o que está de todo errado.

2) Estudar e analisar 

Não vamos entrar em euforias e desenvolver uma app só porque está na moda. Vamos estudar e analisar o que já foi feito. Há muitas coisas e muito conteúdo feito internacionalmente, não temos que começar do 0. O objetivo desta parte é ter base de conhecimento (não apenas de informação!) para avançarmos para o próximo nível de forma sustentada e com cenários do que pode ou não correr bem

3) Desenvolver e testar

Nos produtos tecnológicos o teste é fundamental. A aprendizagem tem o seu preço e uma coisa é a ideia ou o conceito e outra completamente diferente é a tecnologia como intermediário para resolver o problema identificado no ponto 1. Vamos testar usabilidade, funcionalidades, etc. Queremos garantir que a solução que encontramos funciona para TODOS os envolvidos no processo

4) Educar e apoiar os mais inovadores

Temos que saber em que estado da adesão à tecnologia está o nosso mercado (resultado do ponto 2) mas muitas vezes temos que forçar processos, temos que ajudar todos os envolvidos e, tão ou mais importante, incentivar os “innovators” e os “early adopters” que são aquelas pessoas que adotam rapidamente a solução. Gostam e procuram inovação e vão fazer questão de contribuir para o processo de desenvolvimento e melhoria, assumindo o papel de “embaixadores” junto dos seus pares.

Nesta fase devemos apresentar a solução de forma incremental e evolutiva

5) Feedback

No processo de aprendizagem e de melhoria, o feedback é fundamental contudo, o responsável pela solução tem que saber “ler” o feedback. Nem tudo interessa nem devemos mudar tudo só porque um feedback vai contra o que foi feito. Este tipo de solução precisa de tempo e habituação. Alguém se habitou da “noite para o dia” aos smartphone “touch screen”? Foi um processo..

6) Melhorar

Este tipo de soluções não pode parar no tempo. A tecnologia e os comportamentos de utilização alteram com alguma frequência como tal, é importante manter o foco no pontos anteriores para garantir que temos uma solução atual, moderna mas mais importante do que isso, útil e funcional.

 

 

Paulo Morais

É atualmente responsável pela Follow Reference: Digital Health & E-business, onde tem desenvolvido grande parte do seu trabalho colaborando com Marcas de referência.

Mestre em Gestão de Marketing e pós-graduado em Direção de Marketing e Vendas pelo ISCTE.

Coordenador da Pós Graduação em Marketing Digital e Ebusiness da ANJE/UMINHOEXEC, docente na Pós-graduação em Marketing Digital e Comércio Eletrónico do ISVOUGA e Docente na Pós Graduação em Gestão de Marketing do IPAM.

Defende que só é possível acompanhar a dinâmica dos mercados se estivermos constantemente em “modo de partilha” razão pela qual criou o Marketing Portugal, um espaço de referência para partilha de conhecimento e debate de ideias sobre Marketing.

 

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