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TV LOCAL: A nostalgia da identidade no contexto "portoguês"

 

 

 

“ O universal é o local sem as paredes”

Miguel Torga

O objectivo deste artigo é apresentar, sucintamente, algumas conclusões do trabalho de investigação e Doutoramento em Comunicação sobre TV Local e a relevância e oportunidade destes projectos no país e especificamente, no Porto e região Norte.

1 – O re(situar) da lenda urbana - A maneira como as sociedades modernas têm vindo a evoluir, o impacto a nível individual e social bem como os tópicos de desenvolvimento que pretendem impor uma certa e determinada evolução às mesmas, foram fenómenos que suscitaram inúmeras reflexões acerca da identidade e do desenvolvimento bem como, e ainda com mais relevo, que instrumentos poderiam utilizar-se para a sua viabilização. Numa óptica nacional, o desafio que cumpre (re)situar o local impõe-se também pela aposta que se faz na comunicação e na possibilidade de agenciamento da região/local, vitalizando os meios e seleccionando aquele que melhor se assume enquanto agente de desenvolvimento. Os dados históricos ilustram claramente o processo de instrumentalização, a não representatividade e a lógica mercantilista que revestiu a televisão nacional que, documentadamente, muito pouco tem contribuído para a defesa do regional/local. Num âmbito muito sobrelevado pela globalização, torna-se essencial que seja reconhecido o papel da televisão de proximidade, capacitando-a para extrapolar as necessidades dos agentes e incentivando a cidadania, a proximidade, dotando o local de uma renovada imagem, viabilizada pela informação, afirmando-a e similarmente, promovendo a qualidade de vida num projecto identificador.

2 – Acção, expressão, “inscrição”-  Parte-se do princípio de que o reconhecimento da identidade é uma dimensão indispensável ao desenvolvimento – as identidades constroem defesas. O processo de geração de sentido, de inscrição, tal como o referia José Gil, é adoptado aqui como forma de contrariar as “consciências no nevoeiro”, a resignação e o imobilismo como forma de afirmação, significação e criação:[1] “ Inscrever significa pois, produzir real.” Há, portanto, um espaço a ser mais do que preenchido, a ser “inventado”, capaz de incorporar essa identidade; um meio de proximidade pode de facto, responder ao desafio da linguagem regional / local sendo o único ao qual se deve exigir a vocação orientada para esses interesses. Defendemos, assim a necessidade de o local, a comunidade, a região em sentido mais lato, dever ser “sujeito” de acção e enunciação. De facto, em Portugal ainda se assiste a um adormecimento da sociedade civil que urge contrariar; uma das formas de conseguir um empowerment do movimento cívico em relação aos temas locais é a proliferação de meios realmente vocacionados para tal desígnio. E neste sentido, compete questionar: Como pode uma região, uma comunidade, um local expressar-se se não existe um meio de comunicação social que divulgue com frequência, oportunidade e relevância questões e problemas relativos aos mesmos? Como pode uma região, um local, uma comunidade evidenciar as suas emergências, as suas aspirações à afirmação e projecção quando as instituições falham e o sistema não lhes dá voz, se não se cria um meio de comunicação social realmente capacitado em aglutinar os objectivos e interesses das mesmas e que chegue em efectivo, a todos os cidadãos, em termos de qualidade, entendimento e empatia? Estas questões, evidenciam a responsabilidade dos indivíduos, grupos, localidades e espaços motivados pelo desejo de referências e enraizamento e pelo interesse da expressão; atenda-se inclusivamente, ao interesse que estes projectos podem assumir enquanto desafio contra a interioridade.

3- O simbólico: o espaço físico e afectivo A concepção de identidade está relacionada com noções de cariz emotivo ou afectivo, agregando à mesma, questões confinantes como a cultura, a memória e a imagem. É a gestão da imagem da cidade e a forma como ela é percebida pelos cidadãos, tendo em conta que a imagem é um factor fundamental para a projecção e competitividade nacional e internacional da mesma, o que para nós adquiriu importância incorporar e perceber, o contexto por onde se estende e afirma a identidade de um espaço, gizando o âmbito onde se cria a personalidade do lugar, que traduzirá o elemento distintivo e a reputação real e imaginada. Resulta daqui a reflexão de que a comunidade ao mesmo tempo que é produtora de conteúdos, é altamente influenciada pelos media envolventes, originando-se os parâmetros de reciprocidade e proximidade entre comunidade/cidade/local e media. Nesta óptica, os media locais são os mais ajustados para a leitura dos elementos distintivos de um espaço, essencialmente do espaço em que se inserem, sendo este o principal móbil da sua existência. Os media, com este fim, exercem uma função mediadora entre os cidadãos e a cidade, passando a ser estratégicos para os agentes locais, pois incorporam a grandiosidade da cidade e moldam as representações acerca da sua metamorfose. Trata-se de alistar o local, a cidade, a comunidade. Com enormes vantagens, os media exercem uma função mediadora entre os cidadãos e a cidade, passando a ser estratégicos para os actores locais, pois enformam a grandiosidade da cidade e moldam as representações acerca da sua transformação. A noção de que um meio pode ser capaz de pensar os lugares, os territórios onde cada cultura nasce e onde se manifesta, é um dos motes de investimento e desenvolvimento destes projectos desligados dos grandes centros e dos conglomerados mediáticos.

4- Liberdade, proximidade e autonomia- Aliar a matriz formação, interesse de proximidade e alistamento, apenas pode ser concebível em projectos a partir da própria região/local. É essencial um espaço de liberdade, criatividade, proximidade e autonomia. E com isto, subentenda-se que, para que ocorra o que propomos se deve cumprir algo que diz respeito à mentalidade dos responsáveis políticos ou  protagonistas locais. Não é possível construir projectos em comum se houver dissonância de interesses e nada poderá gorar mais incisivamente um projecto, que tem afinal por base a comunicação, do que a não convergência, a desconfiança e a tendência para o absolutismo. Caso venha a concretizar-se uma participação a este nível, deverão os responsáveis políticos locais e regionais e/ou agentes de outra natureza, neste espaço comunicacional que se pretende de convergência, revogar discursos enviesados que apenas têm a particularidade do afastamento e exclusão quando o que se pretende é a reunião e cooperação de forças económicas, intelectuais e colectividades a nível geral. O rendimento político e elitista destes projectos é algo muito contestado posto que, a ressalva daquilo que pressupostamente estaria mais íntimo do conceito democracia fica aqui desvirtuado e sem força. A este receituário, adiciona-se o sentido para com o desenvolvimento da Região e seus cidadãos, partilhando este espaço com eles e não com interesses múltiplos e contraditórios.

O fenómeno da Regionalização (descentralização) parece-nos necessário e impulsionador; a acontecer, a descentralização abrirá novas oportunidades na fundação destes projectos, acautelados por uma política comunicacional esclarecida e fundamentada e um enquadramento jurídico adequado.

 

Em suma, desde as conclusões da Comissão de Reflexão sobre o Futuro da Televisão, que a sustentabilidade destes projectos é discutida. Ao abrigo da alegação económica se atribuiu à carência de mercado publicitário e à não existência de regiões, e ainda a contiguidade com os poderes locais e regionais, o não surgimento destes fenómenos, de forma expressiva, em Portugal. Mas serão estes considerandos válidos no panorama actual da comunicação? Um lugar onde se encontram os particularismos e as identidades singulares num mesmo espaço coexistente com o nivelamento global e onde brotam os motes de uma nova democracia oriunda da interactividade? Genericamente, a experiência tem evidenciado que os canais locais podem ser competitivos no mercado pela procura/oferta de conteúdos locais. O sustentáculo deste sucesso, parece advir do compromisso com as questões tradicional e tipicamente locais. Por outro lado, a sociedade dos dias de hoje, pelos resultados da imediatez, pela eleição do produto de massa simples de consumir e pela construção da vida hodierna onde o cidadão perde identidade, resulta vencida pela não – memória.

Os processos quotidianos fugazes impelem o individuo na procura do sentido quando rodeado de tantas e diversas formas de expressão e representação, ao mesmo tempo que procura uma união com o espaço que o rodeia. O local é um horizonte e uma meta onde o próprio desenvolvimento ganha evidência. A TV local parece portanto, ser consentânea em ceder algo de absoluto: a capacidade de descobrir e dar a reconhecer a comunidade bem como o informar sobre o que está a ocorrer na proximidade; no fundo, trata-se de criar uma narrativa local através do canal, que assuma o retrato da comunidade como protagonista principal e que essa particularidade seja perceptível e patente ao receptor, mesmo que de forma demarcada.


[1] José Gil, op. cit .p 48

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