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Cena de Publicidade ou episódio do National Geographic?

Publicidade: A propósito do novo anúncio da SAPO

Ao contrário do mundo social construído, onde o desenvolvimento nas últimas décadas, associado à expansão do capitalismo, tem empurrado a sociedade para estágios superiores de individualismo, o mundo natural continua a ser fonte de exemplos de fenómenos de harmonia e colaboração. Um deles sempre me fascinou: a protocooperação. De forma simplista, traduz-se numa inter-relação de carácter não obrigatório entre dois organismos que produz benefícios para ambos. São exemplos, o crocodilo e o pássaro-palito que povoam as margens do Nilo. Na sua relação de cavalheiros, o crocodilo permite que o pássaro se passeie pelas suas mandíbulas e se alimente de restos de comida e de pequenos vermes armazenados nos seus dentes, como contrapartida pela eliminação dos parasitas. No final, ambos retiram proveito da relação harmónica que estabeleceram tacitamente.

Recordo-me, desde há muitos anos, de prestar atenção especial às páginas dos jornais e revistas sobre lançamento de novos produtos, à dinâmica das campanhas bem sucedidas, de apreciar as tácticas que as empresas usam para fidelizar clientes, que continuo a observar quando circulo pela cidade, visito lojas, aguardo, no cinema, pelo início de um filme, ou quando recebo, no smartphone, mensagens de propostas ou eventos. Com uma tendência particular para reflectir e acompanhar os temas do marketing e da publicidade, tenho verificado, desde há algum tempo, nas campanhas publicitárias que passam nos media, a existência de uma série de fenómenos que se assemelham à protocooperação, num estreito paralelismo com o mundo natural que lhe pode servir de inspiração. Esta realidade edificada pelo marketing voltou a confirmar-se na recente campanha televisiva da Sapo Music Box.

Fruto de uma fórmula mágica, misto de génio e esforço, os produtos da Apple quase sempre ultrapassaram aqueles que eram os seus objectivos intrínsecos, as finalidades com as quais nasceram, assumindo o estatuto de objectos de culto, autênticos indicadores de status e exclusividade, originadores de um massivo buzz. Assim, capitalizando do imaginário que se formou em redor desta marca, a Sapo através de uma estratégia de go-to--market eficaz e bem estruturada, decidiu utilizar nos seus spots publicitários referências visuais a três dos produtos mais icónicos da Apple: o Iphone, o Ipad e o MacBook. Não podemos considerá-las mensagens subliminares, é certo, já que são percebidas conscientemente pelos sentidos, mas a verdade é que estas são interpretadas e guardadas no subconsciente, resultando num factor adicional de influência na decisão de consumo.

Implicitamente, a Sapo terá como objectivo conseguir um incremento suplementar na procura do seu serviço, através da associação visual e compatibilidade deste com os gadgets da Apple. Em contrapartida a Apple, neste caso, de uma forma passiva, beneficia de publicidade gratuita, numa relação não obrigatória mas que se verifica proveitosa para ambas as partes. No mundo dos negócios as situações em que ambas as partes ganham são, habitualmente, apelidadas de “win win”.

Numa sociedade caracterizada pelo aumento da ferocidade na concorrência, pelo crescente número de marcas que se degladiam por um lugar no nosso imaginário e pela procura incessante de vantagens competitivas que permitam estar um passo à frente dos restantes players, não será de estranhar uma reorientação da estratégia de marketing das empresas na direcção destas relações importadas da natureza. Com alguma certeza, o futuro deverá passar pela evolução destas relações de protocooperação, para relações simbióticas mais planeadas onde o grau de intimidade entre as marcas será mais profundo, tornando estas relações de reciprocidade necessárias para a sua prosperidade e, em última instância, para a sua sobrevivência num mercado cada vez mais competitivo.

Um mutualismo produtor de sinergias porque gerador de relações mais eficientes e, no limite, mais felizes!

 

Artigo escrito por: Manuel Duarte Reis

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